Você ainda tem opinião própria?
Talvez o maior risco da inteligência artificial não seja ela aprender a pensar como nós, mas nós nos acostumarmos a não precisar mais pensar.
Imagem: reprodução Pinterest/cdnmidjourney
Tenho 50 anos e faço parte de uma geração que atravessou uma transformação difícil de explicar para quem já nasceu com o mundo inteiro acessível dentro de uma tela. Eu fiz trabalhos pesquisando em biblioteca, procurei livros em estantes, li capítulos inteiros atrás de uma informação que talvez estivesse escondida em duas páginas, escrevi à mão, consultei enciclopédias e aprendi que pesquisar significava procurar, comparar, interpretar e, muitas vezes, começar de novo.
Depois veio a internet e, em poucas décadas, saímos da escassez de informação para uma abundância quase infinita. Vieram o Google, os smartphones, as redes sociais, os algoritmos e, agora, a inteligência artificial. Aquilo que levava horas ou dias passou a estar disponível em segundos e, teoricamente, deveríamos ter nos tornado uma sociedade extraordinariamente bem informada. Mas não tenho certeza de que foi isso que aconteceu.
Às vezes, tenho a impressão de que estamos vivendo justamente o paradoxo contrário: quanto mais informação temos disponível, menos profundidade parecemos ter para processá-la.
Eu costumo chamar esse fenômeno de “geração headline”, e não estou falando necessariamente de idade. É uma geração comportamental, formada por pessoas que se acostumaram a ler o título sem ler a matéria, assistir ao corte sem conhecer a entrevista, consumir trinta segundos de um assunto complexo e, ainda assim, formar opiniões definitivas sobre política, economia, guerras, ciência, saúde ou comportamento.
O problema não é apenas a superficialidade. Isso por si só já é complexo, mas o mais grave, na minha leitura, é que ela frequentemente vem acompanhada de uma enorme convicção. Temos opiniões muito fortes construídas sobre conhecimentos muito frágeis, quando deveria acontecer justamente o contrário. Quanto mais profundamente estudamos alguma coisa, mais percebemos suas exceções, contradições e contextos. O conhecimento, muitas vezes, não aumenta nossas certezas: ele nos apresenta novas dúvidas.
Só que dúvida não funciona muito bem no ambiente digital. A manchete precisa provocar, o vídeo precisa prender nossa atenção nos primeiros segundos e o algoritmo precisa descobrir rapidamente o que nos causa medo, raiva, desejo ou identificação. Nesse ambiente, dizer “depende” parece fraqueza, embora quase tudo que realmente importa na vida dependa de alguma coisa.
Informação não é conhecimento
Dados da OCDE mostram que, entre 2012 e 2023, o uso da internet entre adultos nos países analisados passou de 76% para 93%. No entanto, entre os países com dados comparáveis de proficiência em leitura, houve melhora significativa em apenas dois, estabilidade em 14 e queda em 11.
Isso não significa, evidentemente, que a internet tenha provocado essa piora. Seria simplista estabelecer essa relação. Mas os números levantam uma questão interessante: como conseguimos multiplicar de maneira tão extraordinária nosso acesso à informação sem necessariamente multiplicar nossa capacidade de compreendê-la?
Talvez parte da resposta esteja na diferença entre informação e conhecimento. Informação pode simplesmente chegar até nós. Conhecimento precisa ser construído, e essa construção exige algo que a tecnologia vem tentando eliminar de quase todas as áreas da nossa vida: esforço.
Não tenho nenhuma nostalgia de precisar ir a uma biblioteca para descobrir algo que hoje encontro em segundos. Não quero um mundo sem Google, GPS, smartphones ou inteligência artificial. A questão é que talvez tenhamos começado a confundir eliminar esforço desnecessário com eliminar qualquer tipo de esforço, inclusive aquele que faz parte do desenvolvimento da nossa capacidade de raciocinar.
Pesquisar exige esforço. Ler um livro inteiro exige concentração. Comparar fontes leva tempo. Compreender seriamente o argumento de alguém com quem discordamos pode ser desconfortável. Construir uma opinião própria também dá trabalho e exige aceitar a possibilidade de descobrir que estávamos errados. São justamente esses processos, porém, que exercitam aquilo que chamamos de pensamento crítico.
Quando começamos a terceirizar o pensamento
Nós sempre terceirizamos algumas funções cognitivas. A calculadora nos poupou de determinadas contas, o GPS de memorizar caminhos e o Google de guardar uma quantidade enorme de informações. Existe até um conceito para isso: cognitive offloading, ou terceirização cognitiva. Isso não é necessariamente ruim, porque liberar capacidade mental de tarefas simples pode nos permitir empregá-la em problemas mais complexos.
A inteligência artificial, no entanto, parece atravessar uma nova fronteira. Ela não apenas guarda uma informação que eu não preciso memorizar. Ela pode ler por mim, resumir, comparar argumentos, interpretar dados, escrever minha resposta, organizar minhas ideias e até construir uma defesa sofisticada daquilo em que eu já acredito. Não estamos terceirizando apenas memória ou tarefas operacionais. Estamos começando a terceirizar partes do próprio processo de raciocínio.
E é justamente aí que, para mim, está o maior e mais perigoso dilema dessa tecnologia.
Durante anos discutimos se um dia a inteligência artificial seria capaz de pensar como um ser humano. Talvez estejamos fazendo a pergunta errada. Talvez o maior risco da inteligência artificial não seja ela aprender a pensar como nós, mas nós nos acostumarmos a não precisar mais pensar.
Ainda é cedo para saber quais serão os efeitos disso no longo prazo, mas algumas pesquisas já levantam questões interessantes. Um estudo da Microsoft com pesquisadores da Carnegie Mellon observou que, entre profissionais que utilizavam IA generativa no trabalho, uma confiança maior na tecnologia estava associada a menor esforço de pensamento crítico relatado durante as tarefas. Isso não permite afirmar que “a IA está nos deixando burros”, mas talvez seja suficiente para lembrar que estamos participando de um enorme experimento sobre como o cérebro humano vai se comportar quando pensar deixar de ser uma necessidade para tantas tarefas cotidianas.
Quem está escolhendo por você?
A inteligência artificial também não chegou a um ambiente neutro. Antes dela, já havíamos entregado parte das nossas escolhas aos algoritmos. Plataformas sugerem o que ouvimos, assistimos e compramos; redes sociais selecionam aquilo que vemos; a publicidade aprende nossos interesses e influenciadores ajudam a transformar produtos em aspirações. Aos poucos, esses sistemas descobriram não apenas aquilo de que gostamos, mas o que nos irrita, emociona, assusta e prende nossa atenção.
Se interajo constantemente com determinado tipo de conteúdo, recebo mais daquilo. Se clico em indignação, provavelmente verei mais indignação. Se demonstro determinada visão de mundo, o algoritmo tende a continuar me oferecendo conteúdos compatíveis com ela. O risco é começar a confundir aquilo que aparece repetidamente diante de nós com uma representação fiel da realidade.
Agora acrescentamos a inteligência artificial a essa equação, e ela entra em um território ainda mais delicado porque não disputa apenas nossa atenção ou nosso consumo: ela pode participar da construção do nosso raciocínio.
Isso me leva a uma pergunta que considero cada vez mais necessária: quanto daquilo que acreditamos nasceu realmente de um processo de reflexão? Quanto veio do nosso grupo, do nosso feed, daquele influenciador com quem nos identificamos, de uma manchete que não chegamos a abrir ou de um vídeo de trinta segundos? E, daqui para frente, quanto daquilo que chamaremos de nossa opinião terá sido formulado ou simplesmente validado por uma inteligência artificial?
Existe uma armadilha adicional. Modelos de linguagem podem apresentar uma tendência a acompanhar excessivamente as premissas do usuário, algo especialmente perigoso porque encontra terreno fértil em uma característica profundamente humana: gostamos de estar certos. Se faço uma pergunta já carregada da minha conclusão e recebo uma resposta brilhantemente articulada sustentando aquilo em que eu acreditava, posso sair dali ainda mais convencida. Mas talvez eu não tenha pensado melhor. Talvez apenas tenha encontrado uma ferramenta extremamente sofisticada para concordar comigo mesma.
Alienados em meio à informação
Talvez a alienação contemporânea seja diferente daquela que imaginávamos no passado. Ela não precisa acontecer pela falta de informação. Podemos estar alienados no meio de uma avalanche de informação.
Podemos passar o dia consumindo notícias, vídeos, podcasts, posts, análises e respostas produzidas por IA e terminar com a sensação de estarmos profundamente informados, quando na verdade apenas acumulamos fragmentos de conteúdo. E uma sociedade que perde capacidade crítica fica mais vulnerável à manipulação de empresas, governos, grupos políticos, influenciadores, publicidade e algoritmos. Quem não investiga, não confronta fontes, não suporta a dúvida e não reconhece os limites do próprio conhecimento se torna mais fácil de convencer e, eventualmente, de transformar em massa de manobra.
A resposta, obviamente, não é abandonar a tecnologia. Eu uso inteligência artificial e considero uma das ferramentas mais extraordinárias que surgiram na minha geração. Ela pode democratizar conhecimento, aumentar produtividade e nos ajudar a compreender coisas que antes exigiriam muito mais tempo. O desafio é aprender a utilizá-la sem entregar junto a nossa autonomia intelectual.
Talvez isso exija uma nova disciplina. Antes de pedir à IA que formule uma opinião, tentar formular a nossa. Antes de pedir argumentos que confirmem aquilo em que acreditamos, pedir também os melhores argumentos contra. Antes de aceitar uma resposta simplesmente porque está bem escrita, perguntar se aquilo realmente faz sentido, de onde veio e quais são as outras interpretações possíveis.
E, paralelamente, continuar fazendo algumas coisas que começam a parecer antiquadas: ler livros inteiros, conversar com pessoas que pensam diferente, escrever algumas coisas do zero, sustentar uma dúvida por algum tempo e preservar a capacidade de dizer duas palavras que parecem cada vez mais difíceis em um mundo de opiniões instantâneas: “não sei”.
Autonomia intelectual não significa ter opinião sobre tudo. Significa saber por que acreditamos naquilo em que acreditamos, reconhecer aquilo que ainda não sabemos e continuar dispostos a mudar quando encontramos argumentos melhores do que os nossos.
A minha geração precisou aprender a viver com a internet. As próximas precisarão aprender algo talvez ainda mais difícil: viver cercadas por máquinas extraordinariamente inteligentes sem abrir mão da própria inteligência.
Porque talvez o grande desafio do nosso tempo não seja construir máquinas capazes de pensar. Isso parece que estamos conseguindo. O verdadeiro desafio será garantir que, quando elas fizerem isso cada vez melhor, nós ainda queiramos pensar também.

