Uma das coisas que tenho aprendido neste momento da vida, morando em outro país, é me reinventar. Me dar a chance de viver experiências novas. Algumas grandes, outras do tamanho de uma forma de bolo.
Hoje o desafio era um bolo de banana sem glúten, sem açúcar e, com um pouco de sorte, com algum gosto. Faltava só a forma. Coisa simples: uma loja de departamento, um corredor, dez minutos. Pá-pum, tudo estaria resolvido.
Mas não foi pá-pum.
No meio do caminho havia um boneco de neve. Gigante, bochechudo, de cachecol, com a serenidade de quem nunca precisou atravessar um agosto por aqui. Confesso que parei. Fiquei pensando se tinha perdido alguma coisa. Eu mal tinha me livrado do calor senegalês do verão escaldante da Flórida, estava começando a sentir a alegria térmica do outono e me preparando para o Halloween. E o Mr. Snow já estava ali, plantado, anunciando o Natal com a tranquilidade de quem conhece o calendário melhor do que eu.
E conhece. Setembro está acabando e, ao que parece, o ano junto.
O que senti foi um misto curioso de desespero e alívio. O desespero veio primeiro e, com ele, uma dúvida que me acompanhou até o caixa: para onde foi este ano? Porque ele foi, como os últimos, exaustivo. Daqueles que a gente atravessa em vez de viver. Olho para trás e não consigo contar direito o que fiz. Está todo mundo assim ou isso é apenas um efeito dos 50?
Mais tarde, o assunto cresceu. Um meme viralizado no IG perguntava por onde andava a "menina veneno”, dos anos 80. Ri, me emocionei e até relembrei o frisson que era o Ritchie, um misto de vampiro com Zé Bonitinho (risos) Depois parei de rir porque, no fundo, me reconheci ali.
E sim, ela está aqui. De óculos para perto, meio surtada com a perimenopausa, atravessando um fog mental que eu ainda não sei se é culpa dos hormônios, da falta deles ou do excesso de tudo que a gente vive neste mundo meio louco. Em especial, desse excesso de telas, de informação e dessas vidas instagramáveis de gente supersaudável e produtiva que, cá entre nós, é um baita pé no saco.
Foi aí que o boneco e o meme se encontraram na minha cabeça. Um queria saber para onde tinha ido o ano. O outro, para onde tinham ido as décadas.
A resposta era a mesma: passaram.
E fiquei pensando se eu não tinha estado esse tempo todo ocupada demais para perceber.
Não que eu queira de volta a menina de 80. Gosto da mulher que ela virou, com óculos, hormônios em revolta e todo o pacote que a maturidade traz. O que me incomoda é outra coisa: a sensação de que parte desse caminho aconteceu comigo colocando energia e atenção em coisas que talvez não fossem tão vitais para mim quanto eram para os outros.
Trabalho, ou melhor, excesso de trabalho, e uma rotina extenuante em busca de metas insanas e da famosa independência feminina. Uma corrida maluca que impuseram à minha geração, e que a gente correu.
Olhando para trás, me perdoo. Afinal, sou daquelas que, quando se jogam, se jogam por inteiro. Mas confesso que, mesmo com tudo o que conquistei, perdi um pedaço precioso da vida.
Talvez venha daí a sensação de que a vida passou rápido demais. Não porque ela seja curta, mas porque a gente nem sempre está presente para vivê-la por inteiro.
E isso, sim, é um erro.
Acho que por isso o "triplex” ficou na cabeça. Não por arrependimento, mas como um alerta: hoje, neste momento da minha vida, não posso mais perder tempo com aquilo que não é vital para mim, que não alimenta o meu coração.
Agora, de volta ao corredor, olho para o Mr. Snow e aceito o seu "Merry Christmas" com o coração mais calmo. Afinal, está chegando uma época mais mansa, mais afetiva, em que o mundo desacelera um pouco e as pessoas tendem a ficar mais amáveis e generosas.
Mas o que me alivia de verdade é outra coisa: por alguns segundos, eu parei e estive ali, inteira. A menina veneno dos anos 80 e a mulher de agora, com os seus desafios, as duas paradas na frente do Mr. Snow, prestando atenção.
Foi preciso um boneco de neve fora de época para me devolver a presença e o senso de que o tempo é finito. E a vida, se a gente não vive, passa voando, sim.
Faltam três meses. Outubro, novembro, dezembro. Não para cumprir metas ou me cobrar e muito menos para ficar aqui dando lição de moral mas, para fazer um balanço honesto: onde tenho posto minha energia? Para onde tenho olhado? Com o que tenho “gasto”o meu tempo?
Saí da loja com a bendita forma de bolo ( e depois volto aqui para dizer se a empreitada deu certo) e uma pergunta que não cabia em sacola nenhuma e resolvi compartilhar por aqui porque desconfio que ela não é só minha:
Você está vivendo a sua vida ou apenas atravessando os dias?

