Onde foi que o capricho se perdeu? (e aqui não estamos falando daquela famosa revista dos anos 90)
Estamos formando profissionais que falam bem, se vendem melhor ainda, mas não sustentam o básico na entrega.
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O mercado não está enfrentando uma crise de talento, está enfrentando uma crise de execução, e os sinais disso estão por toda parte.
Tem algo acontecendo dentro das empresas que pouca gente tem parado para observar com profundidade, e não é falta de oportunidade, é algo mais sutil e, talvez por isso, mais corrosivo: uma perda silenciosa de compromisso com o básico bem feito.
O que se vê, cada vez com mais frequência, é uma inversão de lógica, especialmente no início das carreiras. Menos disposição para executar, mais pressa para opinar, menos interesse em compreender processos, mais vontade de reinventar antes mesmo de entender e zero compromisso com um resultado final de qualidade.
E, aos poucos, vai se naturalizando uma postura em que fazer o que foi pedido parece pequeno demais, mas não é.
Quando olho para trás, para o início da minha trajetória, ainda como estagiária e depois já em posições executivas, havia algo muito claro para mim. Existia senso de ordem, respeito e uma lógica, uma hierarquia, um caminho que, mais do que imposto, fazia sentido eu trilhar.
E esse caminho começava com a escuta. Escutar mais do que falar, observar mais do que opinar, executar com atenção antes de sugerir mudanças, questionar para aprender e respeitar e valorizar a oportunidade de estar com profissionais muito mais experientes que eu, que “cheirava a leite”, como dizia minha avó.
E não estamos falando aqui, antes que os mimizentos de plantão apareçam, de ambientes opressores, onde não se podia falar. Estamos falando de empresas, negócios e ambientes corporativos comuns. E, sim, havia espaço para ideias, mas, antes disso, havia um entendimento muito claro de hierarquia, tempo, contexto e construção.
E sim, nesse percurso, eu engoli alguns sapos, mais de um e algumas vezes. E, olhando hoje, isso nunca foi demérito. Foi parte do processo de aprendizado e de construção profissional.
Crescer, em muitos momentos, exige isso, exige sustentar desconfortos, conter o impulso de reagir, maturidade para entender que nem tudo é sobre o que você quer fazer, mas sobre o que precisa ser feito e fazer bem feito. Sem ego, sem pressa de aparecer e sem ideias desconectadas da realidade.
Existe uma etapa que não deveria ser ignorada, mas tem sido cada vez mais evitada: a de fazer o básico com excelência, o famoso “feijão com arroz”, a entrega simples, correta, revisada. Aquilo que não chama atenção de imediato, mas constrói algo muito mais valioso ao longo do tempo: consistência e confiança.
Foi assim que eu aprendi, foi desse jeito que eu cresci pessoal e profissionalmente, e não com fones de ouvido em uma reunião enquanto meu chefe explicava algo, ou ignorando áudios com orientações do que deveria ser feito, ou entregando por entregar, com erros de português ou com textos mal acabados feitos pelo famigerado ChatGPT.
Não existe crescimento e amadurecimento profissional sem passar por essas etapas. É ouvindo, executando, ajustando, melhorando que se aprende, e isso, de forma consistente, leva à excelência, até que, em algum momento, a opinião passa a ter peso, a sugestão encontra espaço e a inovação deixa de ser expressão de ego e passa a ser contribuição.
Hoje, o mercado vive um momento delicadíssimo, onde vigora uma ordem diferente e completamente distorcida, onde, antes mesmo de dominarem o básico, já querem se destacar, antes de sustentarem entrega, já querem reconhecimento e, antes de compreenderem o todo, com os seus egos inflados, já querem contestar e emitir suas frágeis e rasas opiniões.
Fato é: em tempos de mídias sociais e IA sugerindo textos, nunca foi tão fácil parecer bom. Vide o LinkedIn, ou, como muitos já apelidaram, o Linkedisney.
Um surto coletivo onde estagiários se autodenominam quase CEOs. Um ambiente onde as narrativas são, muitas vezes, mais infladas, surtadas e completamente distoantes da realidade de conhecimento, das funções atribuídas e da entrega, ou melhor, da não entrega.
As descrições são impecáveis, as trajetórias de suposta excelência e os currículos dignos das melhores universidades do mundo que, na prática, inexistem. Se ao menos uma parte disso fosse real, ou seja, sustentada na execução, teríamos, de fato, um cenário de excelência generalizada, mas não é isso que se vê.
O que aparece, com frequência, é um descompasso: boa capacidade de se comunicar e baixíssima consistência para entregar.
E, talvez mais preocupante do que isso, uma certa apatia, zero curiosidade por novas tecnologias, livros, estudo, pesquisa. Menos vontade de ir além e disposição quase nula para fazer melhor do que foi pedido.
Agem como se cumprir o mínimo já fosse suficiente, e sabemos que isso nunca foi o que diferenciou ninguém. O que sempre destacou profissionais foi justamente o oposto: o cuidado com o detalhe, a entrega além do esperado, o respeito pela oportunidade recebida e a humildade de aprender com quem já percorreu o caminho.
Hoje, quando alguém demonstra esse nível de comprometimento, isso chama atenção, porque se tornou raridade.
Infelizmente, hoje está cada vez mais raro ver consistência, ver capricho e ver alguém verdadeiramente interessado em aprender antes de se posicionar.
Talvez o que esteja faltando não seja inteligência, nem potencial, mas algo muito mais simples: o capricho e o simples entendimento de que fazer bem feito o que foi pedido é a base de tudo e, esse começo, muitas vezes ignorado por essa moçada, que define quem de fato vai longe e quem vai ser apenas mais um nessa multidão de profissionais medíocres e com egos inflados que estamos lidando.
Se puder, compartilha comigo a sua visão sobre isso?

