O que um clube do livro fez por mim.
Leitura, encontros e muito mais.
16/30
Eu sempre gostei de ler mas, sendo muito honesta, nos últimos dois anos eu li menos do que gostaria. A vida foi ficando mais corrida, mais prática… e, sem perceber, aquele tempo de pausa, de mergulho, foi ficando em segundo plano.
E talvez por isso essa experiência recente tenha sido tão marcante. Porque não foi só sobre voltar a ler. Foi sobre lembrar por que eu sempre amei tanto isso assim como sempre amei escrever, desde adolescente.
Eu nunca fui muito do suspense, do mistério, do que causa tensão pelo medo. O que sempre me moveu na literatura foi o romance, e talvez isso diga muito mais sobre mim do que sobre os livros em si.
Eu gosto da vida acontecendo. Gosto de histórias em que o amor se constrói ou se reconstrói. Gosto de personagens que quebram, mas encontram um jeito de se refazer. Gosto de famílias que se reorganizam, de mulheres fortes, de recomeços improváveis e daquelas viradas de tirar o fôlego sabe, que fazem a gente suspirar.
Acho que eu gosto, sobretudo, da capacidade humana de se reinventar. De se reconfigurar depois de uma queda. De encontrar sentido mesmo quando tudo parece fora do lugar.
Talvez por isso o romance sempre tenha sido meu lugar de conforto. Não pela fantasia, mas pela verdade que ele carrega. Porque falar de amor é, inevitavelmente, falar de vida e de tudo que vem com ela.
Recentemente, reassisti o filme A Vida em Si, e ele traduz muito bem isso: como pequenas escolhas, encontros e desencontros vão moldando trajetórias inteiras. Como a vida vai se desenhando, muitas vezes fora de qualquer controle, mas ainda assim cheia de significado.
E, de certa forma, A Última Carta, da Rebecca Yarros, toca nesse mesmo lugar.Só que de um jeito mais intenso. Mais cru. Mais profundo. Foi, sem exagero, o livro mais triste que eu já li até o momento, não me recordo de um livro ter mexido tanto comigo como esse.
E eu digo isso com o peso de quem já leu muito ao longo da vida e que por tudo que vivi e um dia falo mais sobre isso, já entende que a tristeza nem sempre é algo a ser evitado.
Às vezes, ela é um convite.Não é uma tristeza vazia. Não é sofrimento gratuito. É uma tristeza que ensina. Que nos molda, nos provoca, desloca e nos transforma.
Esse é o tipo de leitura que não termina quando você fecha o livro. Ela continua.Nos pensamentos que voltam.Nas perguntas que surgem. Nas memórias que, sem aviso, reaparecem.
A Rebecca Yarros tem uma habilidade muito particular de construir histórias que parecem simples à primeira vista, mas que, aos poucos, vão ganhando camadas e, quando você percebe, já está completamente envolvido, emocionalmente comprometido com cada detalhe.
E talvez o mais impactante não seja o que acontece na história.Mas o que acontece dentro da gente enquanto lemos. Porque, em algum momento, a leitura deixa de ser sobre os personagens e passa a ser sobre nós, sobre como lidamos com perdas, as escolhas que fizemos e as que não tivemos coragem de fazer. Sobre os recomeços que adiamos e sobre aquilo que ainda estamos tentando entender.
E tudo isso ganhou uma dimensão ainda maior por causa do clube do livro. Entrar para o clube foi, de certa forma, um resgate. Um retorno a algo que parece antigo, quase ancestral.A ideia de sentar em roda.De ouvir, de falar e de compartilhar histórias, visões e sentimentos gerados a partir da leitura escolhida para o mês.
Lembra um pouco aquelas cenas das nossas avós, costurando, fazendo crochê, preparando alguma coisa na cozinha, mas, no fundo, trocando experiências sobre a vida. Existe algo de muito genuíno e potente nisso.
E talvez profundamente feminino, no sentido mais essencial da palavra: conexão, escuta, presença. Cada encontro é diferente e tem sido uma surpresa muito boa as amizades que tenho construído a partir dali.
Porque cada pessoa lê o mesmo livro a partir de um lugar completamente único e isso é fascinante. O que atravessa uma, não toca a outra. O que emociona profundamente alguém, pode passar quase despercebido para outra.E, ainda assim, todas estão certas. Porque cada leitura carrega uma biografia, cada uma carrega a sua história.
E talvez seja por isso que tem sido uma experiência tão transformadora. Não só porque eu voltei a ler mas, e principalmente, porque eu voltei a sentir, com mais atenção, mais profundidade, mais disponibilidade.
A gente passa grande parte da vida tentando evitar certos sentimentos…
mas são justamente eles que nos conectam com o que há de mais humano em nós.
E, às vezes, tudo o que a gente precisa é de uma boa história, e de boas pessoas ao redor, para lembrar disso. Talvez nunca tenha sido só sobre livros. Mas sobre tudo aquilo que eles despertam. Agora me conta e por aí, o que você tem lido, qual foi o último livro que mexeu profundamente com você?

