O que aprendi vivendo fora do Brasil
08 meses depois, está valendo a pena?
15/30
Sobre deixar o conhecido, atravessar o desconforto e se reconstruir em outro lugar.
Mudar de país pode parecer apenas uma mudança geográfica, mas, passados oito meses, posso dizer que é muito mais profundo do que isso.
É como se, aos poucos, você não só escrevesse uma nova história, mas também se reconstruísse para essa nova jornada. Porque não é apenas sobre entender um novo lugar, é sobre reaprender a viver. Coisas simples deixam de ser automáticas. O jeito de se comunicar muda, as referências mudam, até aquilo que antes era natural passa a exigir esforço, atenção e cuidado.
Estou aqui há oito meses. E quanta coisa aconteceu. E o quanto eu mudei.
Muita gente fala sobre o primeiro ano e diz que, nele, vivemos várias fases. E é verdade. Existe um processo gigante de transformação acontecendo. Para mim, que optei pelos Estados Unidos, ele começou muito antes da chegada. Começou na própria decisão de mudar, no processo do greencard ( extremamente burocrático, diga-se de passagem) e também na fase da pré-mudança, “empacotando” a vida em caixas e mais caixas e escolhendo o que ficava e o que não fazia mais sentido levar.
Tenho a sensação de que, nesses meses, passei por um turbilhão de emoções e sentimentos. E é um pouco desse olhar, dessa experiência, que quero compartilhar aqui.
No começo, existe um entusiasmo muito grande. É difícil não ter. Tudo é novo, diferente, cheio de possibilidades. Existe aquela sensação de conquista, de estar vivendo algo que, em algum momento, foi muito sonhado.
Mas, aos poucos, o encantamento vai passando… e as fichas vão caindo.
Sem muito alarde, as coisas começam a parecer fora do lugar. Não é exatamente um choque, é mais um “desencaixe”. Como se você já não coubesse totalmente onde estava… mas ainda não tivesse certeza de que pertence ao novo lugar.
Você percebe que viver em um país novo, que antes era um destino de férias, vai muito além de falar a língua ou conseguir se virar no dia a dia. O buraco é muito mais embaixo.
É ir a uma farmácia e não conseguir resolver algo simples como você sempre fez.
É dirigir há anos e, de repente, ter que provar tudo de novo, fazendo prova prática e teórica, sendo quase uma cinquentona.
É entrar no supermercado e não reconhecer nada, não saber exatamente o que escolher, nem onde encontrar itens básicos que você antes comprava de olhos fechados.
E, além disso, passa a existir toda uma rotina doméstica, de dona de casa mesmo que, pelo menos para mim, que vinha de uma rotina de executiva super intensa, não me “pertencia”. Esse foi um dos primeiros baques. Da noite para o dia, tive que assumir tudo. Da faxina ao mercado, de dar banho nos cachorros a montar móveis.
E, sem perceber, por mais que isso também te mostre o quanto você é capaz… isso drena, consome, cansa. São pequenas coisas que somadas, ganham um peso enorme.
E, junto com elas, vem aquela pergunta que assombra muitos imigrantes no início da jornada: “Será que foi a melhor decisão?”
Por um tempo, viver nesse “limbo” de perder referências e ainda não ter criado novas é delicado. Pode parecer bobo para quem está de fora, mas não é. É intenso. E essa falta de referência faz muita gente desistir.
Outro ponto pouco falado é que, no começo, é você com você. E mais ninguém.
E, se você tem dificuldade de lidar com a própria companhia, imigrar te obriga a encarar isso. Muitas vezes é você, seu marido, seus filhos… e só.
E isso, por um lado, fortalece vínculos. Aproxima.
Mas, por outro, pode ser difícil e exaustivo, principalmente para nós, mulheres, que acabamos absorvendo muita coisa.
Outro ponto importante, e quase ignorado, é a carreira. Muitas vezes, um dos dois pausa a própria trajetória para que o outro avance. E, se isso não for muito bem alinhado, pode gerar frustração, tristeza e até um certo luto pelo que ficou para trás.
E não pensem que estou sendo pessimista.Estou sendo honesta.Porque acho importante falar do que muita gente não fala.
Quantas vezes, nesses oito meses, me peguei caminhando e pensando:
“Fiz a coisa certa?”, “Está valendo a pena?”, “Se acontece alguma coisa comigo agora, o que eu faço?”
Pode parecer exagero.Mas não é. É consciência de estar em um lugar onde você ainda está aprendendo a existir.
Dito tudo isso, você pode se perguntar: vale a pena?
Hoje, oito meses depois, eu digo: sim. E faria tudo de novo.
Mas talvez eu me preparasse emocionalmente melhor. Não pelo controle, mas pela sanidade. Por entender melhor o que esse processo exige. E é por isso que resolvi compartilhar essa vivência.
Hoje, eu sou outra pessoa, criei uma rotina que não me massacra mais, pelo contrário, me traz autonomia e autoconfiança. Aos poucos, estou me entendendo, criando laços, construindo referências. Tenho resgatado hábitos que a rotina insana de antes tinha me feito perder.
A sensação que tenho hoje é que estou mais próxima de uma versão minha que eu sempre gostei e que estava adormecida.
Uma versão mais leve. Mais prática.Menos crítica.Mais grata.Mais disposta a fazer a vida fluir.
Ainda não é totalmente natural. Mas já não é tão estranho quanto antes.
A adaptação, que parecia enorme, começa a se acomodar e, com ela, vem uma transformação profunda. A gente já não é mais exatamente quem era antes de chegar.
Mas também não deixou de ser, é como se novas camadas fossem sendo incorporadas. Novas habilidades, novos olhares e novas formas de viver e confesso, é muito gostoso voltar a sentir esse “friozinho na barriga” do novo acontecendo sabe?
Hoje, sinto que carrego mais referências dentro de mim. E, aos poucos, isso deixa de ser conflito e passa a ser expansão. E talvez seja isso que ninguém explica muito bem. Migrar não é só começar de novo, é ter coragem de atravessar esse processo inteiro. De lidar com o desconforto, com a solidão, com a falta de controle e, ainda assim, continuar. Talvez imigrar seja exatamente isso. como transplantar uma árvore. Você não chega vazio. Você chega com raízes. Com história. Com tudo o que construiu e te trouxe até ali mas, agora tem que encarar um novo solo, uma nova jornada e passar a pertencer.
Por um tempo, você pode até achar que nada está acontecendo mas, acredite, está e você de forma instintiva está reaprendendo a viver, a criar novos laços e raízes. Leva um tempo, leva, é o ciclo natural da vida mas, acontece e quando essas novas “raízes” se firmarem, a vida volta a crescer, talvez de um jeito diferente.Mais consciente. Mais leve.Mais seu. Mas, sim a vida volta para o seu lugar e os frutos chegam e de novo a gente volta a florescer.
Espero que de alguma forma esse texto tenha te encontrado e ajude a você a ter coragem de tomar decisões seja imigrar, muda de país, de emprego, ter um filho, casar ou descasar ou apenas no seu dia a dia, se escolher. Beijo beijo com carinho Paty

