O problema não é se perder, é permanecer.
Não são as grandes decisões que te afastam de quem você é, mas as pequenas concessões que você aprende a tolerar.
23/30
Existe uma linha muito tênue entre se adaptar e se abandonar.
E, curiosamente, nem sempre ela é percebida no momento em que é cruzada.
A leitura de Playlist do Final Feliz me trouxe de volta a essa reflexão. E talvez esse seja um dos pontos mais interessantes dos romances. No fundo, não são só histórias. São narrativas que fazem a gente refletir sobre sentimentos, escolhas, pessoas, ciclos, amores e perdas.
Não pela história em si, mas pelo que fica depois.
Porque a gente tende a imaginar que o desalinhamento chega de forma clara, quase como uma ruptura. Mas, na prática, ele acontece de forma muito mais silenciosa.
O mais comum é ir se afastando de si sem perceber. Pequenas concessões que parecem inofensivas, ajustes que fazem sentido naquele momento, decisões que priorizam o que está fora enquanto o que está dentro vai sendo adiado. Nada disso, isoladamente, parece grave. Mas isso vai ficando.
E, aos poucos, começa a surgir uma sensação difícil de explicar. Como se algo estivesse sempre um pouco fora do lugar. A vida segue, as coisas continuam acontecendo, você continua funcionando, mas já não existe o mesmo encaixe.
É como continuar vivendo uma vida que já não respira com você.
Não é necessariamente falta de consciência. Em algum nível, você sabe. Só que reconhecer isso implica olhar para escolhas, para caminhos que foram sendo construídos, e nem sempre é simples sustentar esse tipo de honestidade.
Até que chega um ponto em que não é mais só incômodo. É a percepção clara de que você está vivendo algo que já não te representa. E, a partir daí, não dá mais para voltar ao automático. Não porque tudo precisa mudar de uma vez, mas porque a consciência muda a forma como você se relaciona com a própria vida.
E talvez seja exatamente aqui que mora um dos pontos mais importantes, e menos falados. Perceber não resolve tudo, mas muda tudo. Porque, a partir do momento em que você enxerga, começa também a possibilidade de realinhar. Nem sempre de forma rápida, nem sempre de forma confortável, mas possível.
Assim como a Sloan, em diferentes momentos da história, a gente também atravessa fases difíceis, que desorganizam, tiram o chão e, por um tempo, nos afastam de nós mesmos. Mas isso não pode se tornar um lugar permanente. Sem pressa, mas também sem se abandonar, é possível reconhecer, sentir e, aos poucos, se reposicionar. A vida não exige respostas imediatas, mas pede presença e coragem para não continuar ignorando o que já ficou claro.
Talvez não seja sobre ter um plano perfeito ou uma virada radical, mas sobre começar, mesmo que devagar, a ajustar a rota com mais honestidade.
Porque, no fim, sempre existe um caminho possível quando a gente para de insistir no que já não respira e decide voltar para si.
Agora me conta: o que você tem feito por você, algo que realmente te oxigena?
Por aqui, resgatei o hábito da leitura e da escrita. Já foram cinco livros até agora, e embora seja desafiador estar aqui estou me permitindo essa escrita livre, sem qualquer compromisso a não ser o que vem na minha cabeça, risos, e acreditem, esse resgate tem feito mais sentido do que eu imaginava e por aí, o que tem rolado, onde é você por você?

