O hábito de não viver. Quebre o ciclo!
O custo silencioso de continuar no automático
27/30
Há um tipo de experiência que sempre deixamos de lado na agenda.
Não porque ela seja complexa, cara ou inacessível, mas porque exige algo que a gente vem desaprendendo na vida adulta: a disponibilidade interna.
Experimentar algo pela primeira vez raramente é sobre falta de tempo. É sobre permissão. E essa é, talvez, uma das concessões mais negligenciadas nos tempos atuais e, aqui, me incluo.
A gente adia não por falta de vontade, mas por excesso de condicionamento. “Quando tiver tempo, eu vou.” “Quando fizer sentido, talvez eu faça.” “Quando eu estudar um pouco mais, eu tento.”
E assim, sem perceber, vamos nos especializando no modo automático, não em viver mas, em seguir “dentro de caixas” ou “prisões” que nós mesmos nos colocamos.
Existe um conforto silencioso em permanecer dentro das próprias caixas. Elas organizam a identidade, evitam o constrangimento do erro, protegem da sensação de ser iniciante, mas isso custa caro. Sem perceber, vamos limitando e evitando o repertório de experiências que poderiam expandir quem a gente é.
Porque toda primeira vez tem um pouco de desconforto. E ainda bem, porque é no atrito com o desconhecido que a gente descobre novas formas de presença e se expande.
Quando alguém se permite experimentar o novo, algo curioso acontece: o tempo desacelera, a atenção se reorganiza, o corpo participa. e a mente para de vagar no automático.
Entrar em contato com o novo exige foco. E foco, hoje, é quase um luxo. Por isso essa proliferação de escolas de artes, estúdios de cerâmica, crochê, pintura e por aí vai. Essas experiências, principalmente nesse mundo tão louco que vivemos, passaram a ter um efeito quase terapêutico. Elas interrompem o ruído e trazem “oxigênio”, criando um espaço onde não existe performance, só tentativa. Onde não importa ser bom, mas estar inteiro.
E é interessante como, nesses momentos, surgem pequenas metáforas da vida, quase inevitáveis. Nem tudo responde à força. Nem tudo se molda na insistência. Nem tudo cede quando a gente quer e a argila hoje, me ensinou isso.
Existem coisas que pedem observação, ritmo, adaptação. E talvez seja aí que mora um dos maiores aprendizados: a rigidez costuma quebrar o processo. A flexibilidade, por outro lado, cria possibilidades. E se permitir isso é muito bom.
A gente passa boa parte da vida tentando controlar resultados, mas esquece de desenvolver relação com o processo. Experimentar algo novo devolve isso. Devolve o tato, a presença, o erro sem julgamento, o aprendizado em tempo real.
E, ao mesmo tempo, também revela algo desconfortável: quantas coisas a gente deixou de viver simplesmente porque não se colocou como prioridade?
No fundo, não é sobre cerâmica, dança, pintura ou qualquer atividade específica. É sobre interromper o piloto automático. É sobre se autorizar a ser iniciante de novo. É sobre entender que identidade não é um lugar fixo, mas um campo em constante construção.
E, por fim, é principalmente sobre lembrar que a vida não acontece só nos grandes marcos, nas decisões estratégicas ou nos planos bem desenhados. Ela acontece nesses intervalos aparentemente simples, quando a gente escolhe estar presente e se permite viver experiências novas que nos tiram do lugar comum e confortável.
Talvez a pergunta não seja “o que eu ainda preciso aprender?”, mas “o que eu ainda não me permiti viver?”. Porque, no fim, não é a experiência inédita que transforma. É a disposição de sair do lugar conhecido. E isso não é sobre uma aula de cerâmica ou piano que esse ano me permiti fazer, é sobre uma maneira de encarar a vida, sem medo e com intensidade, com vontade de me sentir viva.
Em um mundo cada vez mais automatizado, eficiente e mediado por telas, existe algo profundamente humano em voltar a processos básicos e artesanais. Em tocar, sentir, construir com as próprias mãos. Em transformar matéria bruta em algo que carrega intenção.
Há uma potência quase esquecida no gesto simples de criar. Não pela estética final, mas pelo processo, pelo contato, pela presença. E, curiosamente, algumas experiências, especialmente para nós, mulheres, parecem funcionar como portais para esse reencontro.
A primeira é se ver de verdade. Um ensaio fotográfico, você por você, sem performance, sem personagem. Menos sobre imagem e mais sobre identidade. Um exercício de encarar a própria narrativa sem filtros.
A segunda é criar com as mãos. Argila, tinta, linha, papel — não importa o meio. O que importa é sair da lógica da produtividade e entrar na lógica do processo. Onde não há atalhos, apenas construção e algo naturalmente feito por você.
E a última é escrever a própria história. Organizar memórias, revisitar escolhas, dar nome ao que foi vivido. Um exercício que nem sempre é leve, mas quase sempre é libertador.
Essa 03 experiências me transformaram e ajudaram neste processo de reencontro e conexão e se puder, experimente qualquer uma delas, garanto que você vai se surpreender.
Hoje mais que nunca entendo que se permitir essas pausas não é sobre autocuidado superficial. É sobre reconexão. Sobre lembrar que, antes de qualquer função, existe alguém em constante construção.
E talvez seja exatamente aí, nesse retorno ao simples, ao manual, ao essencial, que a gente encontra não só expansão, mas pertencimento. Pertencimento à própria história, ao próprio corpo e àquilo que nos torna, de fato, humanas.
Agora me diz: qual foi a última coisa que você fez pela primeira vez?
Gabi, obrigada pela companhia na aula hoje e por tudo que ainda vamos viver, amo você amiga e bora achar um forno para queimar nossas obras de arte hahahaha.

