Não é falta de clareza, é medo do que ela exige.
Algumas verdades não exigem mais clareza, exigem disposição para lidar com tudo o que elas tornam impossível continuar ignorando.
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Existe um momento em que a verdade deixa de ser um "sussurro” e o que acontece depois disso tem muito menos a ver com clareza e muito mais com aquilo que estamos tentando proteger então: “Qual é a conversa que você continua adiando com você mesma?”
Foi com essa a pergunta que encerrei o último texto. Nos dias seguintes, enquanto relia algumas mensagens e refletia sobre as conversas que tenho tido com tantas mulheres, percebi que talvez existisse uma camada dessa reflexão que ainda merecesse ser explorada.
A maioria das mulheres com quem converso sobre isso não trava por falta de clareza, trava porque, em algum nível, já sabe que aquele projeto não faz mais sentido, que aquela rotina deixou de refletir quem ela é, que há meses ou anos, qual é a conversa que precisa ser tida, qual é a mudança que precisa começar e qual é o desejo que insiste em voltar, mesmo depois de ter sido empurrado para o fundo da agenda repetidas vezes.
O problema nunca foi a falta de uma resposta, foi ou melhor, é o medo do que fazer com ela.
Existe uma crença confortável de que, se ainda não agimos, é porque ainda não temos certeza suficiente. Essa crença nos permite continuar esperando sem nos sentirmos de certa forma, covardes. Permite tratar a inércia como prudência. Permite acreditar que, quando a clareza finalmente chegar, completa, inquestionável, sem nenhuma fresta de dúvida, aí sim, vamos agir.
Mas a clareza completa raramente chega antes da ação, na maior parte das vezes, ela aparece depois, como consequência dela.
E, se já sabemos disso, ainda que não admitamos em voz alta, talvez a pergunta mais honesta já não seja “por que ainda não tenho certeza?”. Talvez ela seja outra: "o que estou protegendo ao continuar esperando ter certeza?”
Tenho pensado bastante nas formas específicas que esse medo assume. Porque ele raramente se apresenta como medo do desconhecido. Isso seria fácil demais de nomear e, provavelmente, fácil demais de atravessar.
Ele costuma ser mais específico e, justamente por isso, fica mais difícil de reconhecer.
É o medo de deixar de ser reconhecida como a mulher que dá conta de tudo, depois de anos construindo justamente essa identidade. Porque, quando você admite que algo precisa mudar, uma parte de você teme que isso seja interpretado como fragilidade, quando, na verdade, talvez seja exatamente o contrário.
É o medo de admitir que parte do esforço dos últimos anos foi direcionada para um lugar que já não faz tanto sentido. Não que tenha sido desperdiçada, mas que talvez não tenha levado exatamente para onde você imaginava. E esse reconhecimento exige um pequeno luto que poucas pessoas se permitem viver: o luto da versão de si mesma que fez as melhores escolhas que podia com os recursos e a consciência que tinha naquele momento.
É o medo de que seja tarde demais. A comparação silenciosa com uma versão mais jovem de si mesma, que “deveria” ter percebido isso antes, ter agido antes, ter sido mais corajosa antes. Como se existisse um prazo de validade para se reencontrar.
E existe, talvez o mais delicado de todos, o medo de que mudar agora machuque as pessoas que dependem da estrutura que você sustenta hoje, um parceiro, filhos, uma equipe, amizades e por aí vai. É como se no íntimo, acreditassêmos que cuidar de nós mesmas e cuidar dos outros fossem necessariamente posições opostas no tabuleiro, quando, na verdade, talvez façam parte da mesma escolha.
Nenhum desses medos é irracional. Todos fazem sentido. E é justamente por fazerem sentido que são tão eficientes em nos manter paralizadas.
E, é fato, há uma diferença enorme entre desejar e decidir e, entre decidir e agir, existe uma distância ainda maior, que poucas pessoas conseguem atravessar.
Conheço mulheres que carregam o mesmo desejo durante anos. Não porque o desejo seja pequeno ou fraco, mas porque, sem uma ação que lhe dê corpo, ele nunca chega a se transformar em movimento. Ele apenas se repete. Reaparece na mesma época do ano, na mesma conversa com as mesmas amigas, na mesma reflexão silenciosa durante uma viagem, na mesma sensação de que a vida poderia ser diferente.
E o que poderia ter sido o início de uma virada vai, lentamente, se transformando em outra coisa. Vira mais uma frustração no já extenso rol de sonhos e projetos "engavetados". Vira aquela lista invisível de “um dia eu vou” ou vira uma fonte recorrente de desconforto, em vez de uma fonte de direção.
Porque o desejo, sozinho, não transforma nada, ele apenas insiste. Quem transforma é a ação, mesmo quando pequena, mesmo quando incompleta, mesmo quando ainda distante de qualquer certeza.
Talvez seja necessário dizer isto com todas as letras: o medo não é, necessariamente, um sinal de que a verdade está errada, é, muitas vezes, o sinal de que ela é real.
Quanto maior o custo emocional de admitir alguma coisa, maior costuma ser a chance de que essa coisa importe de verdade. As verdades pequenas, descartáveis e sem consequência raramente exigem coragem para serem encaradas. Elas não mobilizam medo porque também não mobilizam mudança. As que mobilizam medo são justamente aquelas que têm o poder de reorganizar uma vida.
Talvez seja por isso que o medo mereça ser interpretado menos como um sinal para recuar e mais como um indicador de relevância. Não como um motivo para fugir da conversa, mas como a confirmação de que essa é, precisamente, a conversa que vale a pena ter.
Não escrevo isso para sugerir que toda mudança deva ser brusca, nem que toda inquietação exija uma grande reviravolta. A vida real raramente funciona assim e eu seria a primeira a desconfiar de qualquer fórmula que prometesse o contrário.
Mas talvez exista uma diferença importante entre esperar a certeza chegar e dar o primeiro passo possível, mesmo sem ela.
Talvez a pergunta não seja “estou pronta?”, talvez a pergunta seja outra.
Na verdade deveríamos nos perguntar: O que estou protegendo ao continuar esperando estar pronta?

