Não é cansaço, é saturação.
Sobre o estado de bode coletivo e sobre as "ilhas de descompressão" que você deve buscar para não colapsar.
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Recentemente comprei um Walkman e voltei a ouvir fitas cassete. Também resgatei o hábito de escrever à mão e de dedicar um tempo para ouvir um disco inteiro, sem alternar músicas a cada trinta segundos e sem fazer outra coisa ao mesmo tempo. E voltei a caminhar sem ouvir nada, em silêncio.
Não foi nostalgia. Era uma tentativa de responder a algo que venho sentindo há um tempo e que tenho percebido em muita gente ao redor.
Estamos vivendo uma espécie de estado de bode coletivo.
Não me refiro ao uso banal da expressão, aquele desconforto passageiro que desaparece depois de um fim de semana de descanso. Falo de uma sensação mais profunda e, ao mesmo tempo, difícil de nomear. Ela aparece quando tudo começa a parecer excessivo. O trabalho cansa antes mesmo de começar. Os livros se acumulam sem despertar curiosidade. As mensagens permanecem sem resposta. Projetos interessantes deixam de entusiasmar. Até atividades que costumavam funcionar como refúgio passam a exigir um esforço que parece desproporcional.
Cada um tenta explicar esse estado à sua maneira. Há quem diga que seja burnout. Outros acreditam estar próximos de um quadro depressivo. Há quem atribua tudo ao excesso de informações, à hiperconectividade ou ao acúmulo de responsabilidades. Também conheço pessoas que simplesmente concluem que perderam a motivação ou que já não são tão produtivas quanto antes.
Talvez exista um pouco de verdade em todas essas leituras. Mas tenho a impressão de que nenhuma delas, isoladamente, explica o fenômeno.
Depois de muitos anos liderando equipes, convivendo com executivos e acompanhando profissionais que atuam em ambientes de alta exigência, passei a perceber um padrão que se repete com frequência. Raramente o problema nasce de um grande evento. Quase sempre ele resulta do acúmulo silencioso de pequenas exigências que nunca cessam. Não é uma crise específica que nos paralisa. É a sensação de que nunca encerramos completamente uma demanda antes de iniciar a próxima.
Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento, a oportunidades, cursos, livros, ferramentas, tecnologias e possibilidades de conexão. Também nunca fomos expostos a um volume tão grande de informações, escolhas e estímulos disputando a nossa atenção. A promessa era de que toda essa abundância nos tornaria mais livres, mais criativos e mais produtivos. O efeito colateral, entretanto, parece ser outro: em muitos momentos, o excesso produz exatamente o oposto da abundância. Produz saturação.
Quando tudo parece importante, torna-se difícil distinguir o que realmente importa.
Quando tudo exige resposta, começamos a responder no automático.
Quando tudo merece nossa atenção, acabamos sem conseguir dedicar atenção profunda a quase nada.
Talvez a paralisia que tantas pessoas descrevem hoje não seja consequência do excesso de trabalho, mas do excesso de tudo.
Excesso de informação, de demandas, de disponibilidade, de escolhas, de comparação, de urgências e expectativas. Um FOMO ( Fear Of Missing Out) infinito que a todo tempo parece nos engolir e nos deixando com a sensação que sempre somos insuficientes ou estamos "devendo”algo e, por último, um escassez crescente de espaços em que a mente possa simplesmente deixar de responder.
Foi tentando compreender esse paradoxo que comecei a dar nome a algo que, intuitivamente, passei a buscar na minha própria rotina: as ilhas de descompressão.
Não penso nelas como um luxo, uma recompensa depois de um dia exaustivo ou uma pausa entre uma tarefa e outra. Para mim, uma ilha de descompressão é um espaço de presença. Um lugar, físico ou simbólico, onde a lógica da performance deixa de existir por alguns instantes.
É um tempo em que não preciso produzir, convencer, responder, aprender, registrar, compartilhar ou transformar a experiência em conteúdo. Também não existe a expectativa de chegar a algum resultado. Apenas a oportunidade de voltar a escutar meus próprios pensamentos sem que eles sejam imediatamente interrompidos por uma notificação, uma reunião, uma demanda ou um algoritmo.
É curioso perceber como nos acostumamos a ocupar todos os vazios. Esperamos uma consulta olhando o celular. Caminhamos ouvindo um podcast. Almoçamos respondendo mensagens. Dirigimos acompanhados por notícias. Até o descanso passou a ser preenchido por estímulos. Como se o silêncio tivesse deixado de ser um espaço legítimo e se transformado em um intervalo que precisa ser ocupado o mais rápido possível.
É por isso que essas ilhas se tornaram tão importantes para mim. Não porque resolvam os problemas ou façam desaparecer as responsabilidades, mas porque me devolvem algo que a rotina acelerada costuma sequestrar: a capacidade de perceber como eu realmente estou.
É nesse espaço que consigo me escutar antes de ouvir todo o resto. É nele que reorganizo prioridades sem a pressão das urgências alheias, recupero um pouco de oxigênio mental e volto ao mundo sem a sensação de estar apenas reagindo a ele. No fim das contas, talvez descomprimir seja justamente isso: criar um tempo em que não existe cobrança, expectativa de desempenho ou necessidade de exposição. Um tempo em que simplesmente respiramos.
Tenho observado, inclusive, que esse é um dos motivos pelos quais tantas pessoas vêm redescobrindo experiências analógicas. O retorno dos discos de vinil, das câmeras fotográficas sem tela, dos cadernos de papel, das livrarias independentes e até de tecnologias que pareciam definitivamente ultrapassadas talvez revele algo maior do que uma tendência estética ou um movimento nostálgico.
Percebi que o valor dessas experiências não está no objeto em si.
Está no ritmo que elas impõem.
O analógico nos devolve uma experiência que o digital quase eliminou: a impossibilidade da pressa.
Uma fita precisa ser rebobinada, um vinil precisa ser virado, um caderno exige tempo entre uma palavra e outra e nada acontece instantaneamente.
E talvez seja justamente essa lentidão que permita à mente descomprimir.
Não acredito que a resposta para o excesso de estímulos seja abandonar a tecnologia. Seria irreal e até contraditório. Mas acredito que estamos começando a perceber que a hiperconectividade nos trouxe inúmeras possibilidades e, ao mesmo tempo, reduziu drasticamente os espaços em que simplesmente existimos sem produzir, sem consumir e, principalmente, sem performar.
Talvez as ilhas de descompressão sejam exatamente isso.
Pequenos territórios de humanidade preservados em uma rotina que insiste em nos manter permanentemente conectados. Tenho estudado muito sobre isso e prometo trazer mais disso por aqui.
E agora eu devolvo a pergunta que deu origem a esta reflexão: quais têm sido as suas ilhas de descompressão? O que, na sua rotina, ainda oferece oxigênio suficiente para você voltar ao eixo?

