Entre foguetes e sonhos, o que ainda nos move.
Entre avanços tecnológicos e corridas globais, um lembrete do que nos torna humanos.
29/30




Fotos: acervo Nasa
Sei que pode parecer meio fora do timing, mas eu não queria escrever por escrever. Eu precisava “filtrar” tudo isso, entender o impacto e o que “mexeu” aqui dentro. Quando a NASA lançou a missão Artemis, não foi apenas um foguete que subiu, foi um revival, um marco e um símbolo de algo muito maior, em especial para minha geração.
Depois de mais de 50 anos desde o programa Apollo program, que levou o homem à Lua, e sim eu acredito nisso, a humanidade voltou a olhar para o espaço e para a Lua não como memória ou algo intocável, mas como destino e é impossível achar isso “ comum” .
Aqui eu não vou falar sobre a exploração espacial, muito menos sobre geopolítica, avanço tecnológico ou narrativa civilizatória. Isso tudo já está posto e cada um fique com aquilo que lhe convém. É inegável que estamos vivendo uma nova corrida, não mais apenas entre nações, mas entre modelos de futuro. Lua, Groenlândia, terras raras, inteligência artificial, chips ultra potentes e por aí vai, tudo isso são peças de um grande tabuleiro e disputa de poder.
Mas o que ficou em mim foi outra coisa, o quanto podemos ser audaciosos e surpreendentes como humanos.
E acabei me lembrando de um bate-papo entre o professor Clóvis de Barros Filho e Sérgio Sacani, que abrindo um parenteses, eu tenho amadooo acompanhar, sobre evolução da humanidade, guerras e sonhos. Em determinado momento surgiu uma pergunta sobre quantas vezes a humanidade avançou pelo amor e quantas pelo conflito/guerra? A resposta nunca é simples, mas talvez a mais honesta seja reconhecer que os dois motores coexistem, que pela dor e pelo amor, avançamos.
A exploração espacial sempre carregou interesses estratégicos, mas ao mesmo tempo desperta algo que nenhuma agenda política consegue controlar, a imaginação.
Quem nunca, quando criança, quis ser astronauta ou passou horas olhando o céu tentando entender o que havia além? Eu sou da geração do Cometa Halley. Lembro da minha mãe fazendo uma festinha temática em um dos meus aniversários, todo mundo de camiseta, ganhamos até uma lunetinha. Bons tempos esses das festinhas simples, dos bolos caseiros e cheios de afeto e muita cobertura de dona Eliana, minha mãe, e de um mundo que parecia muito maior e mais divertido de se viver.
Mas voltando à Artemis, o que mais me chamou atenção foi como o mundo parou para ver. Muita gente foi até o lançamento aqui na Flórida, eu acabei optando por não ir e depois me arrependi, porque mesmo tendo visto daqui de casa, não é a mesma coisa. Ainda assim, o que eu vi foi impressionante, surreal.
No meu condomínio foi todo mundo para a frente das casas acompanhar a ARTEMIS rasgando o céu azul e limpo aqui de Orlando. Olhando para o céu, o tempo parou por alguns minutos. Um lançamento de foguete com clima de final de Super Bowl no melhor estilo americano com bandeirinhas, bottons, transmissão ao vivo em vários canais, milhares de pessoas acampadas literalmente no Cabo Canaveral, enfim, dois shows, a nave e a galera curtindo.
E isso não foi apenas sobre um marco tecnológico, foi sobre pertencimento. É o mesmo sentimento que atravessou gerações desde o Apollo 11, passando pelo fascínio coletivo com o Cometa Halley.
Acho que existe algo quase primitivo nisso, olhar para o céu e se perguntar até onde podemos ir? E talvez, no meio de tanta inteligência artificial, esse seja o lembrete mais importante, o que nos move ainda não é algoritmo ou tecnologia, são os nossos sonhos e isso é genuinamente humano.
Outra coisa que o lançamento da ARTEMIS mexeu comigo, principalmente no meu momento atual, chegada dos 50 anos, foi o mito da idade. Os astronautas da Artemis não eram jovens prodígios, eles estavam na faixa dos 45 a 55 anos e isso não é coincidência, é critério. A NASA não selecionou apenas capacidade técnica, ela buscou uma construção de maturidade emocional, resiliência psicológica e capacidade de tomada de decisão sob pressão extrema.
E foi muito bonito ver isso. Ver a emoção deles, conhecer um pouco das histórias, das suas famílias e da trajetória em especial da astronanauta mulher, ali, potente, ocupando aquele espaço com identidade. São muitas camadas. E isso inevitavelmente traz um paralelo com o mundo dos negócios e com a nova economia. Fundadores mais experientes tendem a construir empresas mais sustentáveis, seja pela estrada percorrida, seja por tudo que já tentaram e falharam antes de acertar.
Todo nós sabemos que decisões complexas exigem repertório, não apenas energia e clareza de propósito geralmente chega depois dos 40, não antes.
Na prática, o que a gente vê, tanto no espaço quanto no empreendedorismo, é que o auge acontece quando identidade e competência finalmente se encontram. Então, se você, como eu, passou ou está passando por um momento de dúvida ou de reavaliação, talvez seja importante respirar e deixar um pouco a vida fluir. Não se cobre tanto mas, também não fique achando que pode deixar a vida passar. Talvez, você possa estar entrando no início da sua fase mais potente. Porque agora não existe só estrada, existe consciência.
No fim, esse texto não é sobre a Lua, não é sobre missão espacial e nem sobre performance aos 50. Esse texto é sobre sonhos. Sobre a nossa capacidade de ir além. Sobre o que ainda nos move. Sobre o que ainda nos faz humanos. Ver um foguete subir não é só assistir a um avanço tecnológico. É reviver algo essencial, o encantamento, a criatividade, a imaginação.
Tenho certeza de que quem acompanhou a missão, até o retorno que mais parecia uma final de Copa do Mundo, não estava ali apenas pela tecnologia ou pela corrida espacial. Era sobre emoção. Era sobre o sonho quase universal de tocar o céu, de ver as estrelas de perto, de atravessar o mundo em um foguete e isso sim, continua mágico.
Em um mundo cada vez mais automatizado, parar para olhar o céu e sentir algo, sem conseguir explicar completamente, é quase um ato de resistência. E talvez seja isso que a Artemis representa. Não apenas a volta à Lua, mas a volta de uma parte esquecida de nós mesmos, a nossa capacidade eminentemente humana de sonhar e de realizar.
