Detox digital, você toparia?
Pesquisam apontam que o brasileiro passa em média de 09 horas por dia conectados a internet.
Imagem:reprodução.
07/30
De uns tempos para cá, o excesso de telas e a necessidade de estar o tempo inteiro conectada têm me incomodado e deixado desconfortável.
Apesar de trabalhar com mídias, inovação e de certa forma viver do digital, confesso que, na minha esfera pessoal, tenho me sentido cada vez mais saturada pelo fluxo incessante de conteúdos e da necessidade constante de estar exposta ou emitindo opinião ou ciente de algo. A sensação de ruído permanente, de informação demais e profundidade de menos é cansativa demais.
O que mais me preocupa, especialmente em tempos de inteligência artificial e proliferação de desinformação, é perceber como a internet pode se tornar um ambiente cada vez mais danoso à saúde física, mental e emocional, sobretudo de crianças ( que para mim nem deveriam ter acesso a redes sociais) e adolescentes.
E isso não é apenas uma percepção subjetiva.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, a saúde mental dos adolescentes se tornou uma das principais preocupações globais de saúde pública. No relatório “Adolescent Mental Health”, a OMS aponta crescimento consistente de quadros de ansiedade e depressão entre jovens na última década, além de destacar a influência do ambiente digital na construção de autoestima, comparação social e exposição a riscos.
Aqui nos Estados Unidos, dados do Centers for Disease Control and Prevention, no relatório “Youth Risk Behavior Survey”, indicam aumento significativo nos indicadores de tristeza persistente e pensamentos depressivos entre adolescentes nos últimos anos. Especialistas correlacionam esse avanço ao aumento do tempo de exposição a telas e redes sociais, especialmente após 2010, período de consolidação dos smartphones e redes.
No Brasil, a pesquisa TIC Kids Online Brasil, conduzida pelo CETIC.br sob coordenação do CGI.br, mostra que a maioria das crianças e adolescentes brasileiros está conectada diariamente, muitas vezes por várias horas, e que o acesso ocorre cada vez mais cedo. O relatório também aponta exposição frequente a conteúdos inadequados, desinformação e situações de risco. Me choquei ao saber que o brasileiro passa em média 09 horas por dia conectado na internet e uma média de 03 h 30 minutos nas redes.
É óbvio que a internet tem pontos positivos, amplia oportunidades de aprendizado e conexão, mas em excesso, é perigosa e como se diz por aí, a diferença do remédio para um veneno é a dose.
É assustador observar meninas tão novas cogitando procedimentos estéticos porque não conseguem se enxergar sem filtros. A tecnologia deixa de ser ferramenta e passa a ser lente distorcida da própria identidade.
Eu vou fazer 50 anos. Sou da última geração que viveu plenamente o mundo analógico e depois migrou para o digital. A minha geração construiu relacionamentos presenciais, estudou sem notificações a cada cinco minutos e trabalhou sem depender de validação algorítmica. E mesmo assim sentimos o impacto da hiperconectividade, quem aí não lembra do nextel ou da incessante luz vermelha do blackberry hahaha.
Imagino, então, como será para as próximas gerações, que já nascem imersas nesse ecossistema digital, distinguir o que é real do que é performance, o que é construção legítima do que é busca por engajamento, do que é fato, história real de uma fake news e do que é de verdade ou simplesmente criado por uma IA.
A economia da atenção não é neutra. Tudo nas redes, das cores, formatos, sons, lettering é intencional, quer te viciar, é aquela dopamina barata entende? Ela é estruturada para capturar tempo, emoção e comportamento. Plataformas são desenhadas para maximizar permanência. Quanto mais tempo conectado, maior a monetização. Isso é modelo de negócio, não teoria conspiratória.
Diante desse cenário, tomei uma decisão de ficar um dia totalmente offline. Sem Instagram, TikTok, LinkedIn ou WhatsApp.
Um dia para respirar sem notificações. Para ler sem interrupções. Para conversar olhando nos olhos. Para criar sem a pressão de publicar. Para existir sem precisar expor ou opinar.
Será desafiador? Tenho certeza que sim já que em alguns dias, também extrapolo e fico mais tempo que deveria nas redes.
Mas, de tempos em tempos, precisamos nos retirar para recuperar autonomia. Precisamos testar nossa capacidade de estar presentes sem depender da mediação de uma tela e de dominar nossos "vícios”. Essa desconexão temporária não é rejeição à tecnologia. É exercício de consciência.
E você, toparia um detox digital de 24 horas uma vez por semana?

