Claude "crazy"?
Quando a ferramenta pode virar muleta (e o humano entrar em standby)
24/30
Se você acha que está dominando a inteligência artificial, talvez esteja acontecendo exatamente o contrário.
Eu sempre transitei pela inovação. No Direito, atuei diretamente com marketing e inovação, ampliando um olhar que tradicionalmente é mais conservador. Hoje, depois de uma transição de carreira que em algum momento ainda quero compartilhar com mais profundidade por aqui, levo essa mesma lógica para uma edtech, conectando tecnologia, educação financeira e aplicação prática.
Mas existe um ponto importante sobre mim que acho válido compartilhar, eu não sou de sair testando tudo primeiro. Eu entro logo depois, depois dos early adopters, quando já dá para usar na prática, mas ainda antes de virar moda.
E é exatamente desse lugar que vem essa reflexão.
Depois da histeria com o ChatGPT, agora é a vez do Claude. Ou, como eu tenho brincado, o Claude "crazy", porque a loucura já escalou. Como toda febre, ela não veio sozinha. Veio acompanhada de um frenesi coletivo, do famoso FOMO (Fear of Missing Out) e de uma nova leva de gurus que, com conhecimento raso, começam a vender soluções mirabolantes, promessas fáceis e caminhos encurtados.
A sensação é que estamos à beira de um surto. Não pela tecnologia em si, que é, sim, revolucionária, mas pela forma como ela está sendo consumida. Existe uma diferença enorme entre usar tecnologia como meio e tratá-la como fim. E hoje muita gente já cruzou essa linha sem perceber.
A inteligência artificial não é inteligência no sentido humano. Ela é estatística sofisticada, capacidade de processamento, acesso massivo a padrões e execução. Ela não pensa, não entende, não vive. Ela processa, organiza e entrega respostas com uma eficiência impressionante, ainda que, em alguns momentos, também erre e distorça ou "alucine" como se fala por aí.
Mesmo assim, tem gente tratando como se fosse uma substituição direta do pensamento humano e isso é perigoso.
Eu tenho observado um comportamento cada vez mais recorrente que tem me incomodado profundamente. Uma geração de jovens e novos empreendedores que não aprofunda, não investiga, não sustenta raciocínio, mas opina com convicção e, mais do que isso, vende produtos e serviços com pouca consistência e credibilidade se auto denominando experts.
É a geração headline. Os empreendedores de palco. Ou, como eu costumo chamar, a geração bullet, leu duas linhas, já virou especialista. Ou pior, já lançou um produto.
Mas existe algo ainda mais preocupante surgindo agora. A gente está criando, ou pelo menos acelerando, uma geração que acredita que tudo precisa ser fluido, automatizado e imediato. Uma geração que rejeita qualquer tipo de fricção ou desconforto em nome de crescimento.
E isso, na minha visão, é grave.
Porque fricção não é falha. Fricção é formação. É no desconforto que a gente aprende, desenvolve repertório, constrói pensamento crítico e amadurece emocionalmente.
Só que o que estamos vendo é o oposto. Uma lógica de executar, processar, entregar e seguir para o próximo, sem pausa, sem reflexão, sem digestão.
Nesse processo, começamos a perder coisas que não são substituíveis por nenhuma tecnologia. A capacidade de sentir, de sustentar conversas difíceis, de olhar no olho, de perceber nuances emocionais, de lidar com silêncio, dúvida e ambiguidade.
E talvez o mais grave seja isso. Estamos reduzindo o espaço do processo criativo real.
Porque criar não é apenas gerar.
Criar envolve caos, dúvida, tentativa, erro, observação, emoção, intuição, repertório e aquele “borogodó” que não se explica. Só que agora tudo vira produção automática, rápido, limpo, otimizado, baseado em prompts infinitos e, muitas vezes, no melhor formato recorta e cola, sem identidade ou sensibilidade.
E é aqui que entra um conceito que sempre guiou a minha trajetória profissional: ambidestria.
A capacidade de sustentar dois mundos ao mesmo tempo. De um lado, o repertório construído, história, experiência, sensibilidade e visão crítica. Do outro, o novo, tecnologia, velocidade, automação e inteligência artificial.
Nunca foi sobre escolher. Sempre foi sobre integrar. Construir algo sólido. E solidez não tem a ver com rigidez, tem a ver com sustentação, profundidade e adaptabilidade.
Hoje, vejo muita gente pulando etapas e tentando surfar a onda da vez. Querendo acessar o novo sem ter construído o antigo. Operando ferramenta sem desenvolver base. Querendo velocidade sem profundidade e isso cobra um preço.
Sem repertório, a tecnologia não amplia, ela escancara. Escancara superficialidade, fragilidade de pensamento e ausência de critério.
A ambidestria é o que impede esse colapso. É o que garante que a tecnologia seja alavanca, e não muleta.
Eu olho para tudo isso com curiosidade. Isso é uma característica minha. Eu uso, estudo, exploro, testo, erro, me adapto.
Mas, confesso que tenho sentido um certo incômodo. Porque fica cada vez mais evidente que não estamos discutindo apenas ferramentas, mas o tipo de profissional e, mais do que isso, o tipo de ser humano que estamos nos tornando.
No final do dia, nenhuma inteligência artificial sente ou assume responsabilidade por algo que é feito, produzido, afinal, quem decide ainda somos nós e talvez o maior risco não seja perder empregos, seja perder algo muito mais silencioso e estrutural: a nossa capacidade de pensar, sentir, criarmos com profundidade e sermos reais, genuinamente, humanos. É muito ruim essa sensação desse "mundo artificial”que estamos vivendo.
Porque, no fim, não é a inteligência artificial que vai substituir o humano, é a superficialidade, potencializada por ela, que pode tornar o humano irrelevante.
Agora me conta: você tem usado a inteligência artificial para ampliar o seu repertório ou está, mesmo sem perceber, permitindo que ela substitua o seu pensamento?

