Há algum tempo eu vinha adiando um passeio ao Epcot, aqui em Orlando. Estava acontecendo o Food & Wine Festival, um daqueles eventos que misturam gastronomia, cultura e a deliciosa possibilidade de passar algumas horas experimentando coisas diferentes, sem grandes preocupações.
Eu queria ir, tinha companhia, oportunidade e vontade. Só faltava uma coisa: me permitir e como às vezes isso é desafiador, pelo menos para mim.
Sempre aparecia alguma pendência, um compromisso, uma razão aparentemente muito sensata para deixar para outro dia. Até que, no domingo, resolvi que iria na segunda-feira.
Sim, numa segunda-feira.
Confesso que a ideia me causou um certo desconforto. Segunda-feira, afinal, é dia de trabalhar, resolver problemas, responder mensagens, organizar a semana. Não exatamente o dia que costumamos associar a um passeio despreocupado por um parque de diversões mas, fui!
E, no começo, aquela sensação esquisita me acompanhou. Uma mistura de culpa com a impressão de estar fazendo alguma coisa errada. Como se houvesse uma autoridade invisível fiscalizando o uso do meu tempo e prestes a me aplicar uma multa por excesso de diversão em horário comercial.
É curioso como certas cobranças continuam existindo mesmo quando ninguém está nos cobrando.
Em determinado momento, me ocorreu algo quase óbvio: sou dona do meu tempo. Mais do que isso, sou dona do negócio que administro. Conheço minhas responsabilidades, sei o que precisa ser feito e tenho condições de decidir quando acelerar e quando diminuir o ritmo.
Então por que tanta dificuldade em me conceder uma segunda-feira diferente?
Talvez porque, depois de tantos anos vivendo sob a lógica das obrigações, a gente acabe confundindo responsabilidade com disponibilidade permanente. Como se ser comprometido significasse estar sempre ocupado, sempre acessível, sempre resolvendo alguma coisa.
E o pior é que vamos nos acostumando.
Aceitamos um pouco mais de estresse, uma noite mal dormida, um almoço apressado, um fim de semana interrompido por mensagens que poderiam perfeitamente esperar. Ultrapassamos pequenos limites todos os dias, quase sem perceber.
Até que o corpo reclama, o humor muda, a paciência desaparece e começamos a nos perguntar por que estamos tão cansados.
Falamos de burnout, de estafa, de ansiedade, de falta de criatividade. Procuramos soluções, métodos, suplementos, aplicativos de organização e novas maneiras de administrar melhor o tempo.
Mas nem sempre nos perguntamos por que temos tanta dificuldade em simplesmente parar.
Não estou falando de abandonar responsabilidades ou de fingir que a vida não tem problemas. Muito menos de uma liberdade que todos possam exercer da mesma maneira. Sei que nem todo mundo pode escolher uma segunda-feira para passear.
Falo de reconhecer, dentro das possibilidades de cada um, que também temos limites. E que respeitá-los não deveria ser uma atitude tomada apenas quando já estamos exaustos.
Ontem passei o dia com uma amiga. Caminhamos, conversamos, experimentamos comidas, observamos as pessoas e aproveitamos aquele ambiente em que adultos parecem receber uma licença temporária para voltar a ser crianças.
E foi uma delícia.
O mais interessante é que, depois daquele desconforto inicial, consegui realmente me desligar. Não fiquei contando as horas, pensando nas mensagens ou imaginando tudo o que poderia estar fazendo naquele momento.
Eu estava ali. Inteira.
Parece pouco, mas talvez seja uma das coisas mais difíceis de conseguir atualmente: estar onde estamos, sem desejar estar em outro lugar.
Voltei para casa mais leve, bem-humorada, com aquela disposição que às vezes procuramos em uma boa noite de sono e não encontramos. E percebi como esses momentos acabam se espalhando para outras áreas da vida. A conversa em casa fica mais agradável, o trabalho parece menos pesado, as ideias circulam com mais facilidade.
A criatividade, aliás, tem uma relação curiosa com o descanso. Passamos horas tentando obrigá-la a aparecer, quando muitas vezes ela surge justamente no momento em que deixamos de procurá-la.
Mas seria injusto transformar até uma tarde de diversão em uma estratégia para produzir mais.
Nem tudo precisa ter uma finalidade.
Às vezes, um passeio pode ser apenas um passeio. Uma conversa pode existir sem levar a nenhuma conclusão. Uma tarde pode ser maravilhosa mesmo que dela não resulte absolutamente nada além de uma boa lembrança.
Talvez seja isso que eu esteja aprendendo nesta fase da vida: a perceber melhor meus próprios limites e a não esperar que o cansaço se transforme em exaustão para reconhecer que preciso de uma pausa.
Porque existe uma diferença enorme entre administrar bem o tempo e preencher cada minuto dele.
Durante muito tempo, acreditei que aproveitar a vida fosse uma recompensa pelo dever cumprido. Primeiro resolvemos tudo, depois descansamos. Primeiro damos conta das obrigações, depois nos divertimos.
Só que as obrigações têm uma capacidade impressionante de se reproduzir. Quando terminamos uma, outras duas já estão esperando na fila.
Se a felicidade depender de uma agenda completamente vazia, estaremos em sérios apuros.
Ontem não aconteceu nada extraordinário. Não tomei nenhuma decisão revolucionária, não tive uma grande revelação e tampouco voltei uma pessoa diferente.
Passei uma segunda-feira agradável com uma amiga, comi coisas gostosas, caminhei bastante e dei boas risadas.
E, pensando bem, isso já é muita coisa.
A vida também acontece no intervalo e, talvez, a gente precise parar de pedir desculpas por estar vivendo, concordam?

