A vida não pede perfeição, pede movimento.
Sobre as "perdas" silenciosas, a autocobrança que paralisa e o delicado exercício de voltar a se abrir para a vida.
Foto divulgação: Bertrand Brasil
Há livros que nos ensinam alguma coisa. Outros parecem chegar quando estamos prontos para fazer determinadas perguntas. E há aqueles que capturam a nossa atenção porque, de alguma forma, tocam lugares que talvez nem soubéssemos que ainda precisavam ser acessados. Foi essa a sensação que tive ao ler Temporada de cura no Ateliê Soyo.
Embora a arte esteja presente em todas as páginas, o livro não é apenas, um convite para aprender uma técnica ou descobrir um novo hobby. Ele é, acima de tudo, um convite para voltar a viver.
E talvez essa seja uma das tarefas mais difíceis da vida adulta.
Em algum momento, quase sem perceber, vamos nos "endurecendo” e . Não necessariamente por causa de uma grande tragédia, mas pelo acúmulo das pequenas perdas que a vida inevitavelmente nos apresenta. Perdemos pessoas, sim, mas também perdemos sonhos que não aconteceram, projetos que ficaram pelo caminho, oportunidades que não voltam, relacionamentos que imaginávamos permanentes e até versões de nós mesmos que precisaram ser deixadas para trás para que outras pudessem surgir. Há lutos que nunca passam por um velório e, ainda assim, transformam completamente quem somos e a maneira como lidamos e enxergamos a vida.
E acho, que o problema nunca foi viver esses lutos, eles fazem parte da experiência humana e, muitas vezes, são exatamente o que nos amadurece, o problema começa quando decidimos morar neles, quando a dor deixa de ser um lugar de passagem e passa a definir a forma como olhamos para a vida.
Aos poucos, deixamos de aceitar convites, de experimentar coisas novas, de acreditar que ainda vale a pena começar de novo, de criar novos relacionamentos, de se permitir sonhar e até sorrir novamente. A vida continua acontecendo diante dos nossos olhos, mas já não participamos dela da mesma maneira. É como se estivéssemos presentes apenas pela metade, observando os dias passarem enquanto, silenciosamente, nos convencemos de que já não faz sentido tentar.
Enquanto lia o livro, pensei que talvez a arte, algumas pessoas e até um bichinho de estimação, um projeto novo, tenha justamente essa capacidade de nos devolver movimento, de nos devolver aquele sopro de vida. Não porque eles resolvam nossos problemas ou eliminem as nossas dores, mas porque nos convidam a colocar algo para fora. Na arte especificamente, quando criamos, organizamos pensamentos, damos forma ao que parecia confuso e expressamos sentimentos que, enquanto permaneciam apenas dentro de nós, pareciam impossíveis de compreender. Nem sempre encontramos respostas, mas frequentemente encontramos clareza. E, muitas vezes, clareza é exatamente o que precisamos para seguir.
Talvez por eu ter experimentado, pela primeira vez, uma aula de cerâmica, esse livro tenha me fisgado de uma forma ainda mais intensa. Foi impossível não lembrar da minha primeira experiência com a argila. Confesso que cheguei animada, mas logo percebi que o processo era muito mais complexo e desafiador do que eu imaginava.
Na cerâmica, você não faz uma aula e sai dali com a peça pronta. Primeiro, modela. Depois, dias mais tarde, lixa e esmalta. Em seguida, a peça passa pela queima e só então volta para as suas mãos. Para quem é impaciente como eu, esse intervalo entre uma etapa e outra já foi, por si só, um enorme exercício.
Mas o maior aprendizado veio quando recebi a peça pronta.
Ela estava muito distante daquilo que eu havia imaginado. Não era delicada, não era perfeitamente proporcional e certamente não parecia ter sido feita por alguém habilidoso ou com a melhor precisão técnica.
Foi uma reação curiosa, porque eu jamais cobraria de outra pessoa um resultado diferente naquele contexto. Era a minha primeira aula. Eu estava aprendendo. Ainda assim, minha expectativa era a de alguém que já dominava a técnica.
Naquele momento percebi o quanto fazemos isso conosco o tempo inteiro. Não nos autorizamos a ser iniciantes e errar, queremos acertar antes mesmo de aprender, queremos colher antes de plantar, queremos a maturidade que apenas o tempo é capaz de construir.
Há alguns dias, durante uma consulta, uma cliente me dizia que sentia estar atrasada em relação à própria vida. Em determinado momento, respondi quase intuitivamente: “Você tem 30 anos. Não queira ter os resultados de quem tem 40 nem a maturidade de quem tem 50.”
Enquanto dizia isso, percebi que aquelas palavras também serviam para mim.
Talvez uma das maiores armadilhas da autocobrança seja justamente nos convencer de que ela nos fará melhores. Mas, na prática, ela frequentemente produz o efeito contrário. Quem se cobra demais deixa de experimentar, porque acredita que não pode errar. Deixa de tentar, porque imagina que o resultado nunca será suficiente. E, pouco a pouco, vai se afastando da própria vida.
Cura no Ateliê Soyo me fez pensar que a cura talvez não esteja em apagar a dor, mas em não permitir que ela interrompa o fluxo da vida. Viver um luto, seja pela perda de uma pessoa, de um sonho, de um projeto, de uma oportunidade ou de uma versão de si mesmo, é inevitável. Permanecer para sempre nesse lugar, não.
Existe um tempo de recolhimento, um tempo de elaboração e um tempo de renascimento. Nenhum deles deve ser apressado, mas também nenhum deles deve nos impedir de seguir.
Hoje, minha peça de cerâmica continua longe de ser perfeita. E talvez nunca seja. Ainda assim, escolhi deixá-la sobre a mesa da minha sala de jantar, justamente para que ela me lembre todos os dias de que nem tudo precisa sair exatamente como imaginei para ser bonito ou fazer sentido.
Ela me lembra que o valor das coisas não está apenas na técnica, mas na coragem de experimentar. Que sempre podemos nos desafiar, sair da zona de conforto, aprender algo novo e permitir que a vida volte a circular, mesmo quando ela insiste em nos endurecer.
Porque a vida sempre nos convida a recomeçar. A questão é se teremos coragem de aceitar esse convite.
Talvez a cura não seja o momento em que a dor desaparece. Talvez ela comece quando, apesar dela, escolhemos voltar a viver. Quando entendemos que o sofrimento faz parte da experiência humana, mas não precisa ser o lugar onde decidimos permanecer.
Talvez seja justamente essa a mensagem mais bonita de Temporada de cura no Ateliê Soyo: abrir espaço para a vida voltar a circular, sem a ilusão de que ela será perfeita, mas com a confiança de que continuará sendo extraordinariamente viva.
Se essa reflexão encontrou você, compartilhe sua experiência nos comentários. Acredito que uma das maiores demonstrações de coragem seja aceitar os ciclos da vida, viver cada um deles com consciência e, quando chegar a hora, permitir-se viver de novo, recomeçar e se reinventar. Porque, no fim, talvez viver seja exatamente isso: continuar escolhendo a vida, mesmo depois de tudo aquilo que tentou nos convencer a desistir dela.

