A vida não espera você se encontrar.
Existe um momento em que tudo continua funcionando por fora, mas você já não se reconhece por dentro.
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Imagem:Pinterest
Estava aqui fazendo mais uma “entrega”, das tantas que faço, e me dei conta de como é fácil a gente se colocar em situações que sabemos que nos incomodam e, mesmo assim, continuamos.
Talvez o mais desconfortável de admitir seja isso: não é falta de consciência. A gente sabe. Sabe o que incomoda, o que pesa, o que já não faz mais sentido e, ainda assim, continua.
Porque se perder nem sempre faz barulho, às vezes, é só ir se deixando para depois tantas vezes que, quando a gente percebe, já não se reconhece mais no que escolhe. E o mais perigoso é que isso quase sempre parece responsabilidade, comprometimento ou produtividade.
Você está ocupada, resolvendo, entregando, sendo necessária. Está presente em tudo, respondendo a todos, dando conta do que precisa ser feito, mantendo a vida “funcionando”. Mas, aos poucos, quase sem perceber, você começa a desaparecer de si mesma e continua presente para todo mundo.
Não acontece de uma vez, isso vai acontecendo no dia a dia. Na correria. Nas urgências que nunca são suas, mas que você assume como se fossem. E, principalmente, nos pequenos adiamentos que parecem inofensivos, mas que, quando somados, vão te anulando e te afastando de você mesma.
Você começa cedendo um pouco. Depois, relevando mais um pouco. Quando percebe, está se adaptando a tudo, cabendo em todos os espaços, respondendo a todas as demandas e a todos.
E, sem perceber, vai se deixando para depois. Não parece errado e talvez seja exatamente por isso que a gente continua. Porque, em troca, vem aquela sensação de satisfação, quase como uma dopamina que mascara o que de fato estamos sentindo.
A gente continua dando conta, continua sendo eficiente, continua sendo alguém em quem todos confiam. Mas, intimamente, sabemos que estamos quase “respirando por aparelhos”.
A vida começa a ficar automática demais. Vazia demais. Distante demais de quem somos e talvez uma das verdades mais difíceis de encarar seja essa: a nossa vida é única.
Ela não acontece duas vezes. Não existe um momento perfeito mais à frente onde tudo vai se reorganizar e vamos finalmente viver com mais sentido. Não existe reprise esperando a gente se reencontrar.
A vida continua acontecendo enquanto a gente se abandona, se esquece e se distancia de quem realmente é.
Hoje, no meio desse fluxo, me dei conta de algo que, ao mesmo tempo, pesa e liberta: se eu não me proteger, inclusive de mim mesma, eu vou ser engolida e, pior, vou continuar no automático.
Foram anos operando em alta performance, com entregas constantes, exigência elevada e um ritmo que parecia sustentável… até deixar de ser. Anos e anos sendo drenada por demandas que nem sempre eram minhas, por expectativas de perfeição e por um padrão de produtividade em modo máximo, que nunca respeitou quem eu era de verdade.
E, se isso acontece por aí também, puxe o “freio”, não vai ser fácil mas, é preciso parar. Parar de ouvir tanto ruído, de tentar dar conta de tudo, de se colocar sempre depois e inclusive, de se convencer de que isso é normal.
Pare antes que você adoeça e comece a se escutar de novo, com honestidade, com mais presença e coerência física e emocional. Sem negociar tanto aquilo que importa.
Porque, no fundo, a pergunta não é complexa. O que, de fato, nos nutre? O que nos alimenta e, ainda assim, eu insistimos em deixar para depois? É nisso que temos que focar e não no que preenche agenda ou o que gera validação ( que são válidos e necessários mas, não podem ser maiores ou mais importantes do que aquilo nos nos faz sentir vivos).
E talvez não seja por acaso que escrever voltou a ocupar esse espaço para mim.
Eu assumi, quase como um compromisso silencioso comigo mesma, o desafio de escrever 30 textos.
Confesso que, por gostar de escrever, achei que seria fácil. Mas tem sido um exercício profundo de disciplina, resiliência, priorização e autoconhecimento.
Estar aqui, pelo simples prazer de estar, sem preocupação com engajamento, performance ou resultado, tem sido um desafio mas, ao mesmo tempo, libertador.
Talvez isso, por si só, já seja uma forma de voltar, de me enxergar de novo, de sair do automático e de voltar a viver uma vida mais minha.
Há alguns dias, fiz um exercício simples, mas poderoso. E quero compartilhar com você.Listei cinco coisas que eu amo e que, em algum momento, fui deixando de lado.
Ler.
Escrever.
Fotografar.
Desenhar/pintar.
Ter tempo de qualidade com meus pais e irmãos.
É simples, mas não é pequeno, porque são justamente essas coisas que me devolvem para mim. E talvez se priorizar não seja sobre mudar tudo de uma vez mas, sobre parar de se abandonar aos poucos.
Se isso fez sentido para você, talvez valha começar por algo simples, liste por aí também as cinco coisas que você ama e que têm ficado para depois, apenas cinco.
Porque, no fim, não é o excesso de tarefas que nos esvazia, é a nossa “ausência” nelas.
Com carinho,
Paty

