A vida acontece em ciclos.
Sobre a coragem de se permitir florescer.
18/30
Com a chegada da primavera no hemisfério norte, marcada pelo equinócio, a natureza nos lembra de algo simples, mas profundamente negligenciado: a vida definitivamente não acontece em linha reta. Ela acontece em ciclos.
A natureza não negocia com o tempo. Não antecipa a flor no inverno, não resiste ao outono, não apressa a primavera. Ela apenas respeita o processo. E talvez seja exatamente isso que, muitas vezes, nos falte.
Vivemos tentando sustentar versões que já não cabem mais, acelerar fases que ainda pedem maturação e evitar, a qualquer custo, os momentos de recolhimento, como se apenas a expansão tivesse valor. Mas não tem.
Há dias de inverno em nós. Dias silenciosos, introspectivos, em que a vida acontece por dentro. Dias em que tudo parece mais lento e, ainda assim, profundamente necessário.
Há dias de verão. Dias de expansão, de troca, de presença, de intensidade, quando queremos viver, construir e ocupar espaço.
Há dias de outono. Dias de encerramento, de desapego, de coragem para soltar o que já cumpriu seu papel, mesmo quando isso desorganiza certezas.
E há dias de primavera. Dias de renascimento, de energia que retorna, de vida que volta a pulsar, agora com mais consciência.
O problema nunca foi viver esses ciclos. O problema é resistir a eles. É querer florescer quando ainda é inverno, é se apegar ao que já caiu, é, muitas vezes, se violentar para caber em tempos que já não são mais seus.
E, nesse desalinhamento, algo sutil, mas profundo, acontece. Eu, por exemplo, começo a me afastar de quem sou. Pequenas concessões, silêncios acumulados, adaptações excessivas. Até que, em alguns momentos, já não me reconheço mais.
Eu não aprendi isso em livros. Aprendi vivendo.
Já vivi invernos que me exigiram coragem antes mesmo de eu me sentir pronta. Sair da casa dos meus pais significou não apenas mudar de endereço, mas aprender a existir em um mundo novo, que assustava e, ao mesmo tempo, expandia.
Já vivi verões longos, intensos, cheios de movimento e construção. Anos em que a vida pulsava com força e tudo parecia acontecer ao mesmo tempo.
Também atravessei outonos densos, com tons de inverno, em que deixar ir não era confortável. Fases em que, muitas vezes, eu mesma já não me reconhecia e precisei reaprender quem eu era, sem as camadas que tinham ficado pelo caminho.
Talvez seja por isso que, hoje, a primavera seja tão simbólica para mim e faça tanto sentido.
Vivendo na Flórida, em Orange County, uma região conhecida pela energia das flores de laranjeira, esse renascimento passa a ser vivido no dia a dia. Florescer, aqui, ganha forma, cor e presença. Mas, mais do que isso, ganha consciência.
A escolha de respeitar o próprio tempo. De não me violentar para caber em fases que já não são mais minhas. De entender que cada ciclo tem uma função que não pode ser ignorada sem custo.
Florescer, para mim, deixou de ser sobre estar no auge. Passou a ser sobre não me abandonar no processo.
Sobre entender que o inverno também constrói, que o outono também liberta, que o verão também expande, mas não sustenta para sempre. E que a primavera sempre volta.
E talvez exista algo ainda mais simbólico nesse momento.Às vésperas dos meus 50 anos, uma fase que muitos ainda enxergam com ressalvas, quase como um ponto de perda, eu enxergo como abertura.
Uma nova janela para celebrar a vida com mais consciência, mais presença e mais verdade.
Se antes havia pressa, hoje há escolha. Se antes havia cobrança, hoje há clareza. E, principalmente, há gratidão por todas as estações que me trouxeram até aqui.
Porque chegar até aqui não é sobre o tempo que passou. É sobre tudo o que ainda pode florescer. Talvez essa seja a maior beleza dos ciclos.
Eu não floresço menos com o tempo. Eu floresço melhor.
E espero viver e celebrar muitas e muitas primaveras pela frente. E você tem se permitido florescer e viver os ciclos da vida?

