Foto: Pinterest/reprod.
Hoje acordei com uma sensação estranha. É 1º de novembro, faltam apenas 60 dias para terminar o ano e, para completar, hoje os relógios aqui na Flórida voltaram uma hora. Agora são duas horas de diferença em relação ao Brasil. Curioso como até essa mudança no fuso horário parece reforçar a sensação de que o tempo está escapando pelas mãos. Ganhamos uma hora no relógio, mas não conseguimos fazer o ano passar mais devagar. Sessenta dias. Parece pouco quando olhamos para o calendário, mas pode ser muito quando pensamos em tudo o que ainda cabe dentro desse tempo.
Talvez por ter sido um ano de Copa do Mundo, eleições no Brasil, de tantas notícias, discussões e acontecimentos que disputaram nossa atenção, 2026 tenha passado com uma velocidade difícil de explicar. Outro dia estávamos fazendo planos para janeiro e, de repente, já começamos a falar sobre o Natal, as férias e o que esperamos de 2027.
Mas será que o ano passou rápido demais ou fomos nós que estivemos ausentes em boa parte dele?
Tenho pensado muito sobre isso. Sobre a facilidade com que atravessamos os dias sem perceber o que estamos fazendo com eles. Acordamos, cumprimos compromissos, resolvemos problemas, respondemos mensagens, acompanhamos notícias, nos preocupamos com o amanhã e, quando percebemos, mais uma semana terminou. Depois um mês. Depois quase um ano inteiro.
E a vida vai acontecendo enquanto estamos ocupados demais para prestar atenção nela.
Não estou falando de grandes conquistas, viagens extraordinárias, mudanças radicais ou daquela lista de objetivos que costumamos escrever na primeira semana de janeiro. Estou falando das pequenas construções que, muitas vezes, passam despercebidas. Uma conversa que tivemos coragem de enfrentar, um hábito que conseguimos abandonar, um limite que finalmente aprendemos a estabelecer, um medo que deixou de nos paralisar, uma decisão que nos aproximou um pouco mais de quem gostaríamos de ser.
Nem toda evolução aparece em fotografias, números ou resultados que podemos mostrar aos outros. Algumas das transformações mais importantes acontecem silenciosamente, dentro de nós.
Por isso, quando pergunto o que você fez em 2026, não estou propondo um balanço de produtividade. Não quero saber quantos livros você leu, quantos quilos perdeu, quanto dinheiro ganhou ou quantos projetos conseguiu concluir. Quero provocar uma pergunta talvez mais difícil: quanto de você esteve realmente presente na vida que viveu até aqui?
Porque existe outra maneira, ainda mais silenciosa, de desperdiçar o tempo. E ela não tem relação com a quantidade de tarefas que realizamos, mas com a quantidade de energia que entregamos ao que está fora do nosso controle.
Quanto tempo você perdeu este ano tentando entender o comportamento de alguém? Quantas horas gastou remoendo uma conversa, uma crítica, uma injustiça, uma decepção? Quantas vezes permitiu que a opinião de outra pessoa determinasse seu humor, sua autoestima ou até mesmo a maneira como você enxergava a si próprio?
E quantos dias foram contaminados por acontecimentos que, embora importantes, não dependiam de você?
Vivemos em um mundo que parece exigir uma reação permanente. Precisamos ter opinião sobre tudo, acompanhar todas as notícias, participar de todas as discussões e, de preferência, escolher um lado. A indignação virou rotina. A comparação virou hábito. E a atenção, que deveria ser um dos nossos bens mais protegidos, tornou-se algo que entregamos sem perceber.
Não se trata de ignorar o mundo, de ser indiferente às injustiças ou de deixar de se importar com as pessoas. Trata-se de reconhecer que existe uma diferença entre se importar e permitir que alguma coisa nos consuma.
Podemos discordar sem transformar cada divergência em uma batalha pessoal. Podemos nos decepcionar sem carregar a decepção indefinidamente. Podemos reconhecer que alguém foi injusto conosco sem passar os meses seguintes tentando convencer essa pessoa de quem realmente somos.
Há uma liberdade enorme em compreender que nem tudo merece uma resposta, nem toda provocação merece nossa energia e nem toda opinião sobre nós merece encontrar abrigo dentro de nós.
Afinal, enquanto você tenta controlar o que os outros pensam, dizem ou fazem, existe uma vida inteira esperando pela sua atenção. A sua.
E talvez seja essa a perda que menos contabilizamos. Não apenas o tempo gasto com o que não importa, mas tudo aquilo que deixamos de viver enquanto estávamos emocionalmente ocupados com o que não podíamos mudar.
O passeio que adiamos, o livro que não começamos, a conversa que não tivemos, o projeto que continuou guardado, o cuidado conosco que ficou para depois. Pequenas renúncias que parecem inofensivas quando acontecem isoladamente, mas que, somadas, acabam contando a história de uma vida vivida pela metade.
O curioso é que somos especialistas em adiar a própria vida.
Na segunda-feira começo a dieta. No mês que vem volto a me exercitar. Quando as coisas se acalmarem, vou cuidar mais de mim. No ano que vem organizo minhas finanças, mudo minha rotina, faço aquela viagem, começo aquele projeto, encontro tempo para o que realmente gosto.
Criamos marcos imaginários para autorizar mudanças que, na maioria das vezes, poderiam começar em uma terça-feira qualquer.
E agora, com a proximidade de dezembro, é provável que muita gente já esteja mentalmente em 2027, como se os próximos dois meses fossem apenas uma sala de espera para uma versão melhor da vida.
Mas novembro e dezembro também são vida. Não são um intervalo entre o que não fizemos e aquilo que prometemos fazer.
Não precisamos esperar um ano novo para começar a viver um ano melhor.
Talvez esses 60 dias sejam uma oportunidade de fazer algo diferente. Não de correr atrás de todas as metas que ficaram pelo caminho, nem de transformar o fim do ano em uma maratona de compensações. Mas de olhar com mais honestidade para a maneira como estamos vivendo.
O que merece continuar? O que já cumpriu seu papel? O que estamos carregando por hábito, culpa, medo ou simplesmente porque ainda não tivemos coragem de soltar?
Que pessoas, situações e preocupações estão ocupando um espaço desproporcional na nossa vida? E, principalmente, o que poderíamos fazer com toda a energia que recuperaríamos se deixássemos de alimentar aquilo que nos faz mal?
Talvez seja hora de encerrar algumas conversas, inclusive aquelas que continuamos repetindo mentalmente muito depois de terem terminado. De abandonar a necessidade de explicar nossas escolhas a quem não está disposto a compreendê-las. De aceitar que algumas respostas não virão e que nem todo capítulo precisa de um desfecho perfeito para ser encerrado.
Também pode ser hora de começar alguma coisa. Pequena, possível, imperfeita. Sem esperar pela motivação ideal, pela agenda vazia ou pela chegada de janeiro.
Tenho cada vez mais consciência de que o tempo é o único recurso que não conseguimos recuperar. Podemos reconstruir projetos, refazer planos, ganhar novamente o dinheiro perdido e até recomeçar relações. Mas não existe maneira de trazer de volta uma tarde desperdiçada, um encontro que deixamos de viver ou os meses em que permitimos que a opinião dos outros fosse mais importante do que a nossa própria consciência.
E talvez a maturidade tenha muito a ver com isso: aprender a escolher onde colocamos nossa atenção, porque é justamente ali que colocamos a nossa vida.
Hoje, olhando para o calendário, não quero pensar nesses 60 dias como uma contagem regressiva. Particularmente, detesto esse frenesi de que precisamos estar sempre a postos para a próxima conquista, de olho no tão desejado “topo”, como se a vida fosse uma corrida interminável. Prefiro enxergar esses dias como uma oportunidade de presença e, sim, de fazer escolhas mais conscientes, valorizar o que construí, reconhecer o que preciso mudar e não continuar adiando aquilo que depende de mim e de mais ninguém.
Não tenho a pretensão de terminar 2026 com todas as respostas, todas as metas cumpridas ou todos os problemas resolvidos. Mas gostaria de terminá-lo sabendo que estive mais presente na minha própria história do que nas histórias que os outros tentaram escrever sobre mim.
E você? Como está lidando com isso?
Quando olhar para trás, no último dia de dezembro, estará em paz com suas escolhas ou incomodado com o tempo que deixou escapar?
Porque uma coisa é certa: o tempo vai passar de qualquer maneira. A diferença está no que fazemos com ele enquanto ainda é nosso.

